terça-feira, 5 de maio de 2009

1. O que é uma aliança

Um dos conceitos fundamentais a ser compreendido no estudo do Velho Testamento é o de PACTO. Em toda a extensão da revelação divina, Deus nunca mantém um relacionamento desprovido de compromisso com suas criaturas racionais. Ele, como SENHOR, estabelece Seu pacto, e, durante a história revelacional, confirma-o em cada fase importante da história da salvação.

E, por PACTO queremos dizer aquela “aliança de sangue, soberanamente administrada”, como expõe Palmer Robertson em sua obra O Cristo dos Pactos. No VT encontramos.

Em seu aspecto mais essencial, aliança é aquilo que une pessoas. Nada está mais perto do coração do conceito bíblico de aliança do que a imagem de um laço inviolável. A preeminência de juramentos e sinais nas alianças divinas realça o fato de que a aliança, em sua essência é um pacto. A aliança estabelece compromisso de pessoa com outra. Um juramento obrigatório da aliança podia assumir várias formas:

a. Um juramento verbal (Gn 21:23-31; Ex 19:8; Dt 7:8,12; Ez 16:8).

b. A concessão de uma dádiva (Gn 21:28-31).

c. Comer uma refeição (Gn 26:28-30; Gn 31:54; Ex 24:11)

d. O erguimento de um memorial (Gn 31:44ss; Js 24:27)

e. O aspergir de sangue (Ex 24:8)

f. O oferecimento de sacrifício (Sl 50:5)

g. O passar debaixo do cajado (Ez 20:37)

h. Ou dividir animais (Gn 15:10,18)

Em várias passagens da Escritura a relação integral do juramento com aliança é apresentada mais claramente pelo paralelismo da construção (Dt 29:12 e I Cr 16:16). Essa estreita relação entre juramento e aliança enfatiza o fato de que a aliança em sua essência é um pacto. Pela aliança, as pessoas tornam-se comprometidas umas com as outras. Da mesma forma, como uma noiva e um noivo trocam as alianças como um “sinal e penhor” de sua “fidelidade constante e amor permanente”, assim também os sinais da aliança divina simbolizam a permanência do pacto entre Deus e o seu povo.

A frase “pacto de sangue”, ou pacto de vida e morte, expressa o caráter absoluto do compromisso entre Deus e o homem no contexto da aliança. Deus jamais entra em relação casual ou informal com o homem. As implicações de seus pactos entendem-se às últimas conseqüências de vida e morte.A terminologia básica para descrever o estabelecimento de uma relação de aliança vivifica a intensidade de vida e morte das alianças divinas. A frase “fazer aliança”, no VT, significa, literalmente “cortar uma aliança”. Esta frase, “cortar aliança” ocorre em toda a extensão do VT. Tanto na lei (Gn 15:18), como nos profetas (I Sm 11:1,2) e como nos escritos (Jó 31:1). Vejamos o texto de Gn 15:18.

18 Naquele mesmo dia, fez o Senhor aliança com Abraão

ZI¦X¥d M¡X¥A¢@-Z£@ D¡ED¥I Z¢X¡m @hD¢D M]l¢d 18

Particularmente notável é o fato de que o verbo “cortar” pode ficar só e, ainda assim, significar claramente “cortar uma aliança” (I Sm 11:1,2). Este uso indica quão essencialmente o conceito de “cortar”veio a relacionar-se com a idéia de aliança nas Escrituras. Vejamos o texto de I Sm 20:16:

16 Assim, fez Jônatas aliança com a casa de Davi, dizendo: Vingue o Senhor os inimigos de Davi

C¦E¡C I¤A¥I«@ C¢l¦N D¡ED¥I [¤u¦Ah C¦E¡f ZI¤d-M¦R O¡Z¡P]D¥I Z«X¥K¦l¢E 16

Não somente a terminologia, mas o ritual comumente associado com o estabelecimento da aliança reflete, de maneira dramática um processo de “cortar”. Na medida em que se faz uma aliança, animais são “cortados” em cerimônia ritual. (Gn 15). A divisão do animal simboliza um “penhor de morte”, no momento do compromisso da aliança. Os animais desmembrados representam a maldição que o autor do pacto invoca sobre si mesmo caso viole o compromisso que fez (Jr 34:20).

Esta frase “pacto de sangue” concorda idealmente com a ênfase bíblica de que “sem derramamento de sangue não remissão” (Hb 9:22). O sangue tem significação nas Escrituras porque representa vida, não porque seja bruto e sangrento. A vida está no sangue (Lv 17:11), e por isso o derramamento de sangue representa um julgamento sobre a vida. O derramar de vida-sangue significa o único caminho de livramento das obrigações de aliança uma vez contraídas. Uma aliança é um pacto de sangue” que compromete os participantes à lealdade sob pena de morte. Uma vez firmada a relação de aliança, nada menos do que o derramamento de sangue pode libertar das obrigações no evento de violação da aliança.

Por fim, é soberanamente administrado pois é o Próprio Deus que o estabelece e dita as suas normas. Este direito é somente dEle, pois Ele é o criador, e tem todos os diretos sobre suas criaturas racionais.Tanto as evidências bíblicas como as extrabíblicas indicam a forma unilateral do estabelecimento da aliança. Nada de barganha, troca ou contrato caracteriza as alianças divinas da Escritura. O soberano Senhor do céu e da terra dita os termos da sua aliança. De fato, a aliança divina é um pacto de sangue soberanamente administrado.

2. As alianças do Velho Testamento

No VT encontramos, basicamente, o registro de 2 (duas) alianças:

1. Pacto das Obras: Gn 2:16, 17

2. Pacto da Redenção: Gn 3:15

a. Pacto do começo: Gn 3:15

b. Pacto Noético: Gn 9

c. Pacto Abraâmico: Gn 15:12-18

d. Pacto Sináitico: Dt 29

e. Pacto Davídico: II Sm 7; Jr 33:17

3. A unicidade das alianças divinas

As Escrituras obviamente apresentam uma série de relacionamentos em termos de alianças instituídas pelo verdadeiro Deus. As alianças primárias nas Escrituras são as que foram feitas com Noé, Moisés e Davi, e a nova aliança. Além disso, forte evidência favorece ver como tendo caráter de aliança tanto no relacionamento criador original entre Deus e o homem na criação, como o primeiro pacto estabelecido entre Deus e o homem, depois da queda.

Diante desta verdade, perguntamos: devem as alianças ser vistas como compromissos distintivos e sucessivos que se substituem em seqüência temporal? Ou são as alianças construídas uma sobre a outra de sorte que cada aliança sucessiva suplementa a precedente sem, ao mesmo tempo, suplantar a continuação do papel do pacto mais antigo entre Deus e o seu povo?

A evidência acumulativa das Escrituras apontam definitivamente em direção ao caráter unificado das alianças bíblicas. Os múltiplos pactos de Deus com o seu povo unem-se basicamente em um único relacionamento. Detalhes particulares das alianças podem variar. Pode-se notar uma linha definida de progresso. Todavia, as alianças de Deus são uma. Esta unicidade pode ser vista de duas maneiras: na unicidade estrutural e na unicidade temática, vejamos.

3.1 A Unidade Estrutural das Alianças

Considerando a unidade das várias ministrações da aliança pode-se começar examinando primeiramente as alianças feitas com Abraão, Moisés e Davi.

Nestas percebemos uma unidade na experiência histórica. Deus estabelece sua aliança com Abraão e sua descendência. Os descendentes de Abraão viveram também sob as alianças mosaicas e davídicas. Em vez de “limpar o quadro” e começar de novo, cada aliança sucessiva com os descendentes de Abraão avança os propósitos originais de Deus a um nível superior de realização.

Deus fez um compromisso de aliança com os patriarcas. Prometeu-lhes a terra de Canaã. Por causa dessa promessa, Deus agiu soberanamente nos dias de Moisés para livrar Israel do Egito (Ex 2:24; Ex 6:4-8). Os Dez mandamentos, que formam o coração da aliança mosaica, firma-se solidamente sobre a libertação do Egito, alcançada em cumprimento aos compromissos feitos a Abraão. O altar que Moisés edificou, em associação com o estabelecimento da aliança do Sinai, oferece ulterior evidência de que a aliança mosaica estava inseparavelmente ligada à a abraâmica. Moisés edifica o altar “de doze colunas, segundo as doze tribos de Israel (Ex 24:4).

Este mesmo quadro de continuidade emerge no tempo do estabelecimento da aliança davídica. As promessas chegam a Davi, não como palavras novas ou descontínuas com o passado. Ao contrário, tanto as palavras de Deus a Davi, como a resposta de Davi ao Senhor, refletem a experiência passada da libertação do Egito (II Sm 7:6,23).

Ainda mais, Davi em seu leito de morte, ordena a Salomão a reconhecer o fundamento mosaico da sua aliança. Ele exorta Salomão a guardar as leis de Deus, “como está escrito na lei de Moisés ... para que o Senhor confirme a palavra que falou a mim” (I Rs 2:3s).

Assim, os pontos cruciais do estabelecimento das alianças sob Moisés e Davi refletem a continuidade delas. Quando Deus institui uma nova aliança com a nação de Israel, ordena a ocasião de sorte que reflita especifica,mente a continuidade a não a descontinuidade, com o passado.

Outro fator que enfatiza a unidade das alianças abraâmica, mosaica e davídica é a unidade na daminsitração geneológica. Esta ministração genealógica sublinha a conexão de cada aliança sucessiva com as prévias ministrações. Quando deus determinou relacionar-se com seu povo em termo da aliança, Ele segue critério geneológico. Este aspecto geneológico da aliança está presente nas alianças abraâmica, mosaica e davídica, e manifesta-se especificamente na referência ao conceito de “semente” (Gn 15:18 // Ex 20:5,6; Dt 7:9 // II Sm 7:12). O filho de Davi não é simplesmente herdeiro da promessa da aliança feita a Davi. É também herdeiro das promessas da aliança feita com Moisés e Abraão.

É no contexto do princípio geneológico que devem ser entendidas as palavras de Pedro aos israelitas de seus duas: “Vós sois filhos dos profetas e da aliança que Deus estabeleceu com vossos pais”. (At 3:25). As estipulações geneológicas das alianças com Abraão, Moisés e Davi entendem-se até à nova aliança.

A nova aliança, prometida pelos profetas não aparece como uma unidade distintiva de aliança não relacionada com as ministrações prévias de Deus. Ao contrário, a nova aliança representa o cumprimento consumado das alianças anteriores.

Em Jr 31:31ss vemos que na nova aliança alei de Deus continuará em vigor e será escrita ano coração; ou seja, a essência da nova aliança relaciona-se diretamente com a aliança-lei do Sinai. E no capítulo seguinte, Jeremias combina a referência à nova aliança com alusão à velha aliança feita com Abraão. Deus “plantará fielmente” seu povo “na terra” (Jr 31:41). Mas, ao mesmo tempo, lê “lhes porá um coração e um caminho” para que eles o temam para sempre (Jr 32:39,40).

O profeta Ezequiel também relaciona a nova aliança com as dispensações prévias de Deus. Ezequiel 34:20ss refere-se a uma “aliança de paz” que Deus ainda vai estabelecer com Israel. Deus colocará sobre um pastor, seu “servo Davi”, que será príncipe sobre eles (Ez 34:23,24). Assim, a perspectiva da nova aliança se funde com a antiga aliança davídica. Uma notável passagem de Ezequiel é o texto de Ez 37:24-26, no qual o profeta faz uma lausão relacional entre as quatro alianças (Davídica -- moisaica -- Abraaânica-- nova aliança). Vejamos o texto.

24 O meu servo Davi reinará sobre eles; todos eles terão um só pastor, andarão nos meus juízos, guardarão os meus estatutos e os observarão.

25 Habitarão na terra que dei a meu servo Jacó, na qual vossos pais habitaram; habitarão nela, eles e seus filhos e os filhos de seus filhos, para sempre; e Davi, meu servo, será seu príncipe eternamente.

26 Farei com eles aliança de paz; será aliança perpétua. Estabelecê-los-ei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles, para sempre.

27 O meu tabernáculo estará com eles; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.

Todas essas três alianças antigas combinam-se em uma única ordenança divina. Pela nova aliança, todas as promessas de Deus se consumam. A nova aliança não aprece na promessas do VT como alguma novidade previamente desconhecida ao povo de Deus. Ao contrário, a nova aliança representa a fusão de todas as velhas promessas da aliança em termos de uma futura expectação. E até onde concerne à história do povo de Deus do VT, as estipulações e expectações da nova aliança nunca acham realização.

Não foi antes das glórias da era do novo testamento que a nova aliança recebeu esclarecimento formal. Pelo ministério do Filho de Deus , a nova aliança finalmente trouxe à fruição as promessas das alianças abraâmica, mosaica e davídica. Jesus indica o momento de estabelecimento formal da nova aliança por ocasião da instituição da refeição da aliança da Ceia do Senhor (Lc 22:20).

20 Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramada em favor de vós

20 touto to pothrion h kainh diaqhkh en tw aimati mou to uper umwn ekcunnomenon

O Cristão celebra a realidade deste novo relacionamento de aliança cada vez que participa da Ceia do Senhor (I Co 11:25). E o escritor de Hebreu reconhece o cumprimento destas novas promessas de aliança para a era presente citando a profecia de Jeremias em dois momentos (Hb 8:6-13; Hb 10:15-18). Assim, pode-se concluir que as alianças abraâmica, mosaica e davídica cumprem-se na realidade da nova aliança do dia presente. As alianças de Deus através das era são uma. Esta singularidade encontra esplêndido testemunho no caráter consumado da nova aliança.

Tendo visto, então, a unidade entre as alianças abraâmica, mosaica, davídica e a nova aliança, uma pergunta fica para ser respondida: Como se relacionam as ministrações de aliança antes de Abraão com estas alianças posteriores? A unidade da aliança de Deis inclui essas ministrações mais antigas? Respondendo à pergunta, respondemos concisamente:

A aliança com Noé provê a estrutura preservativa pela qual o propósito de Deus de redimir um povo para si deve ser realizado (Gn 8:22).

De maneira semelhante, a maldição proferida logo depois da queda do homem foi ao mesmo tempo um compromisso pelo Todo-poderoso no sentido de redimir um povo para si mesmo [a semente da mulher]. O apóstolo Paulo, de forma dramática em sua carta aos Romanos, alude ao compromisso de aliança de Deus para garantir o triunfo da semente dos redimidos sobre Satanás (Rm 16:20 // Gn 3:15). As palavras de compromisso de Deus, ditas primeiro à serpente, têm permanente significação para hoje.

3.2 Unidade Temática da Alianças

Esta unidade de tema é o coração da aliança na medida em que relaciona Deus com o seu povo. Através do registro bíblico uma frase única se repete como sumário da relação de aliança: “eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo”. A constante repetição desta frase ou sua equivalente indica a unidade da aliança de Deus( Abraão: Gn 17:7; Moisés: Ex 6:6,7; Davi: II Re 11:17; nova aliança: Ez 34:24; Zc 2:11; Hb 8:10; II Co 6:16).

Este tema unificador é desenvolvido em associação com a real habitação de Deus no meio do seu povo. A realidade de Deus morar com o seu povo revela significação sempre crescente através da Escritura. Move-se da imagem do tabernáculo (Ex 25:8) à do templo (I Re 9:3) à da cidade de Deus (Sl 87:1-3) à encarnação de Cristo (Jo 1:14) e à nova Jerusalém (Ap 21:3) . Por morar no meio deles, deus sela a realidade do fato de que Ele é, na verdade, o seu Deus e eles são, na verdade o seu povo.

Finalmente, o tema “eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” alcança seu clímax através da sua incorporação em uma única pessoa. Não no tabernáculo, mas em Cristo, é que o tema encontra cumprimento consumado. Assim, a essência do conceito da aliança se une com as expectações messiânicas de Israel. A antecipação futura é focalizada sobre um único indivíduo que incorpora em si mesmo a essência da aliança, enquanto funciona ao mesmo tempo como cabeça messiânica. Esse indivíduo cumpre seu papel como personificação da aliança através de sofrimento em lugar de outros. É o servo do Senhor, real em seu caráter, mas destinado a sofrer (Is 42:6; Is 49:8; Is 55:3,4).

Porque os vários filamentos de esperança de redenção convergem nesta pessoa única, ela se torna foco unificador de toda a Escritura. Tanto o “reino” como a “aliança” se unem sob o “Emanuel”. Não é sangue da aliança que Ele ministra como fizera Moisés (Ex 24:8). Pelo contrário, Ele solenemente declara: “isto é o meu sangue, sangue da nova aliança” (Mt 26:28; Lc 22:20). Como mediador real da aliança, Ele não ministra meramente as leis do reino. Ministra-se a si mesmo ao povo.

As alianças de Deus são uma. Na pessoa de Cristo as alianças de Deus encontram unidade encarnada. Porque Jesus, o Filho de Deus e mediador da aliança, não pode ser dividido, também as alianças não podem ser divididas. Ele mesmo garante a unidade das alianças porque e, Ele mesmo, o coração de cada uma das várias ministrações da aliança.

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Doutorando em Ciências da Religião (PUC-GO), Mestre em Ciências da Religião (PUC-GO), Licenciatura em Pedagogia (UVA-CE), História (UVA-CE), Matemática (UNIFAN-GO) e Bacharel em Teologia (FACETEN-Ro). Professor de Metodologia do Ensino da Matemática; Metodologia do Ensino das Ciências Naturais; Educação e Cultura; Fundamentos Epistemológicos da Educação e Educação, Sociedade e Meio Ambiente, Filosofia, Ética, Ciências Políticas (FANAP).