1. O que é uma aliança
Um dos conceitos fundamentais a ser compreendido no estudo do Velho Testamento é o de PACTO. Em toda a extensão da revelação divina, Deus nunca mantém um relacionamento desprovido de compromisso com suas criaturas racionais. Ele, como SENHOR, estabelece Seu pacto, e, durante a história revelacional, confirma-o em cada fase importante da história da salvação.
E, por PACTO queremos dizer aquela “aliança de sangue, soberanamente administrada”, como expõe Palmer Robertson em sua obra O Cristo dos Pactos. No VT encontramos.
Em seu aspecto mais essencial, aliança é aquilo que une pessoas. Nada está mais perto do coração do conceito bíblico de aliança do que a imagem de um laço inviolável. A preeminência de juramentos e sinais nas alianças divinas realça o fato de que a aliança, em sua essência é um pacto. A aliança estabelece compromisso de pessoa com outra. Um juramento obrigatório da aliança podia assumir várias formas:
a. Um juramento verbal (Gn 21:23-31; Ex 19:8; Dt 7:8,12; Ez 16:8).
b. A concessão de uma dádiva (Gn 21:28-31).
c. Comer uma refeição (Gn 26:28-30; Gn 31:54; Ex 24:11)
d. O erguimento de um memorial (Gn 31:44ss; Js 24:27)
e. O aspergir de sangue (Ex 24:8)
f. O oferecimento de sacrifício (Sl 50:5)
g. O passar debaixo do cajado (Ez 20:37)
h. Ou dividir animais (Gn 15:10,18)
Em várias passagens da Escritura a relação integral do juramento com aliança é apresentada mais claramente pelo paralelismo da construção (Dt 29:12 e I Cr 16:16). Essa estreita relação entre juramento e aliança enfatiza o fato de que a aliança em sua essência é um pacto. Pela aliança, as pessoas tornam-se comprometidas umas com as outras. Da mesma forma, como uma noiva e um noivo trocam as alianças como um “sinal e penhor” de sua “fidelidade constante e amor permanente”, assim também os sinais da aliança divina simbolizam a permanência do pacto entre Deus e o seu povo.
A frase “pacto de sangue”, ou pacto de vida e morte, expressa o caráter absoluto do compromisso entre Deus e o homem no contexto da aliança. Deus jamais entra em relação casual ou informal com o homem. As implicações de seus pactos entendem-se às últimas conseqüências de vida e morte.A terminologia básica para descrever o estabelecimento de uma relação de aliança vivifica a intensidade de vida e morte das alianças divinas. A frase “fazer aliança”, no VT, significa, literalmente “cortar uma aliança”. Esta frase, “cortar aliança” ocorre em toda a extensão do VT. Tanto na lei (Gn 15:18), como nos profetas (I Sm 11:1,2) e como nos escritos (Jó 31:1). Vejamos o texto de Gn 15:18.
18 Naquele mesmo dia, fez o Senhor aliança com Abraão
ZI¦X¥d M¡X¥A¢@-Z£@ D¡ED¥I Z¢X¡m @hD¢D M]l¢d 18
Particularmente notável é o fato de que o verbo “cortar” pode ficar só e, ainda assim, significar claramente “cortar uma aliança” (I Sm 11:1,2). Este uso indica quão essencialmente o conceito de “cortar”veio a relacionar-se com a idéia de aliança nas Escrituras. Vejamos o texto de I Sm 20:16:
16 Assim, fez Jônatas aliança com a casa de Davi, dizendo: Vingue o Senhor os inimigos de Davi”
C¦E¡C I¤A¥I«@ C¢l¦N D¡ED¥I [¤u¦Ah C¦E¡f ZI¤d-M¦R O¡Z¡P]D¥I Z«X¥K¦l¢E 16
Não somente a terminologia, mas o ritual comumente associado com o estabelecimento da aliança reflete, de maneira dramática um processo de “cortar”. Na medida em que se faz uma aliança, animais são “cortados” em cerimônia ritual. (Gn 15). A divisão do animal simboliza um “penhor de morte”, no momento do compromisso da aliança. Os animais desmembrados representam a maldição que o autor do pacto invoca sobre si mesmo caso viole o compromisso que fez (Jr 34:20).
Esta frase “pacto de sangue” concorda idealmente com a ênfase bíblica de que “sem derramamento de sangue não remissão” (Hb 9:22). O sangue tem significação nas Escrituras porque representa vida, não porque seja bruto e sangrento. A vida está no sangue (Lv 17:11), e por isso o derramamento de sangue representa um julgamento sobre a vida. O derramar de vida-sangue significa o único caminho de livramento das obrigações de aliança uma vez contraídas. Uma aliança é um pacto de sangue” que compromete os participantes à lealdade sob pena de morte. Uma vez firmada a relação de aliança, nada menos do que o derramamento de sangue pode libertar das obrigações no evento de violação da aliança.
Por fim, é soberanamente administrado pois é o Próprio Deus que o estabelece e dita as suas normas. Este direito é somente dEle, pois Ele é o criador, e tem todos os diretos sobre suas criaturas racionais.Tanto as evidências bíblicas como as extrabíblicas indicam a forma unilateral do estabelecimento da aliança. Nada de barganha, troca ou contrato caracteriza as alianças divinas da Escritura. O soberano Senhor do céu e da terra dita os termos da sua aliança. De fato, a aliança divina é um pacto de sangue soberanamente administrado.
2. As alianças do Velho Testamento
No VT encontramos, basicamente, o registro de 2 (duas) alianças:
1. Pacto das Obras: Gn 2:16, 17
2. Pacto da Redenção: Gn 3:15
a. Pacto do começo: Gn 3:15
b. Pacto Noético: Gn 9
c. Pacto Abraâmico: Gn 15:12-18
d. Pacto Sináitico: Dt 29
e. Pacto Davídico: II Sm 7; Jr 33:17
As Escrituras obviamente apresentam uma série de relacionamentos em termos de alianças instituídas pelo verdadeiro Deus. As alianças primárias nas Escrituras são as que foram feitas com Noé, Moisés e Davi, e a nova aliança. Além disso, forte evidência favorece ver como tendo caráter de aliança tanto no relacionamento criador original entre Deus e o homem na criação, como o primeiro pacto estabelecido entre Deus e o homem, depois da queda.
Diante desta verdade, perguntamos: devem as alianças ser vistas como compromissos distintivos e sucessivos que se substituem em seqüência temporal? Ou são as alianças construídas uma sobre a outra de sorte que cada aliança sucessiva suplementa a precedente sem, ao mesmo tempo, suplantar a continuação do papel do pacto mais antigo entre Deus e o seu povo?
A evidência acumulativa das Escrituras apontam definitivamente em direção ao caráter unificado das alianças bíblicas. Os múltiplos pactos de Deus com o seu povo unem-se basicamente em um único relacionamento. Detalhes particulares das alianças podem variar. Pode-se notar uma linha definida de progresso. Todavia, as alianças de Deus são uma. Esta unicidade pode ser vista de duas maneiras: na unicidade estrutural e na unicidade temática, vejamos.
Considerando a unidade das várias ministrações da aliança pode-se começar examinando primeiramente as alianças feitas com Abraão, Moisés e Davi.
Nestas percebemos uma unidade na experiência histórica. Deus estabelece sua aliança com Abraão e sua descendência. Os descendentes de Abraão viveram também sob as alianças mosaicas e davídicas. Em vez de “limpar o quadro” e começar de novo, cada aliança sucessiva com os descendentes de Abraão avança os propósitos originais de Deus a um nível superior de realização.
Deus fez um compromisso de aliança com os patriarcas. Prometeu-lhes a terra de Canaã. Por causa dessa promessa, Deus agiu soberanamente nos dias de Moisés para livrar Israel do Egito (Ex 2:24; Ex 6:4-8). Os Dez mandamentos, que formam o coração da aliança mosaica, firma-se solidamente sobre a libertação do Egito, alcançada em cumprimento aos compromissos feitos a Abraão. O altar que Moisés edificou, em associação com o estabelecimento da aliança do Sinai, oferece ulterior evidência de que a aliança mosaica estava inseparavelmente ligada à a abraâmica. Moisés edifica o altar “de doze colunas, segundo as doze tribos de Israel (Ex 24:4).
Este mesmo quadro de continuidade emerge no tempo do estabelecimento da aliança davídica. As promessas chegam a Davi, não como palavras novas ou descontínuas com o passado. Ao contrário, tanto as palavras de Deus a Davi, como a resposta de Davi ao Senhor, refletem a experiência passada da libertação do Egito (II Sm 7:6,23).
Ainda mais, Davi em seu leito de morte, ordena a Salomão a reconhecer o fundamento mosaico da sua aliança. Ele exorta Salomão a guardar as leis de Deus, “como está escrito na lei de Moisés ... para que o Senhor confirme a palavra que falou a mim” (I Rs 2:3s).
Assim, os pontos cruciais do estabelecimento das alianças sob Moisés e Davi refletem a continuidade delas. Quando Deus institui uma nova aliança com a nação de Israel, ordena a ocasião de sorte que reflita especifica,mente a continuidade a não a descontinuidade, com o passado.
Outro fator que enfatiza a unidade das alianças abraâmica, mosaica e davídica é a unidade na daminsitração geneológica. Esta ministração genealógica sublinha a conexão de cada aliança sucessiva com as prévias ministrações. Quando deus determinou relacionar-se com seu povo em termo da aliança, Ele segue critério geneológico. Este aspecto geneológico da aliança está presente nas alianças abraâmica, mosaica e davídica, e manifesta-se especificamente na referência ao conceito de “semente” (Gn 15:18 // Ex 20:5,6; Dt 7:9 // II Sm 7:12). O filho de Davi não é simplesmente herdeiro da promessa da aliança feita a Davi. É também herdeiro das promessas da aliança feita com Moisés e Abraão.
É no contexto do princípio geneológico que devem ser entendidas as palavras de Pedro aos israelitas de seus duas: “Vós sois filhos dos profetas e da aliança que Deus estabeleceu com vossos pais”. (At 3:25). As estipulações geneológicas das alianças com Abraão, Moisés e Davi entendem-se até à nova aliança.
A nova aliança, prometida pelos profetas não aparece como uma unidade distintiva de aliança não relacionada com as ministrações prévias de Deus. Ao contrário, a nova aliança representa o cumprimento consumado das alianças anteriores.
Em Jr 31:31ss vemos que na nova aliança alei de Deus continuará em vigor e será escrita ano coração; ou seja, a essência da nova aliança relaciona-se diretamente com a aliança-lei do Sinai. E no capítulo seguinte, Jeremias combina a referência à nova aliança com alusão à velha aliança feita com Abraão. Deus “plantará fielmente” seu povo “na terra” (Jr 31:41). Mas, ao mesmo tempo, lê “lhes porá um coração e um caminho” para que eles o temam para sempre (Jr 32:39,40).
O profeta Ezequiel também relaciona a nova aliança com as dispensações prévias de Deus. Ezequiel 34:20ss refere-se a uma “aliança de paz” que Deus ainda vai estabelecer com Israel. Deus colocará sobre um pastor, seu “servo Davi”, que será príncipe sobre eles (Ez 34:23,24). Assim, a perspectiva da nova aliança se funde com a antiga aliança davídica. Uma notável passagem de Ezequiel é o texto de Ez 37:24-26, no qual o profeta faz uma lausão relacional entre as quatro alianças (Davídica -- moisaica -- Abraaânica-- nova aliança). Vejamos o texto.
24 O meu servo Davi reinará sobre eles; todos eles terão um só pastor, andarão nos meus juízos, guardarão os meus estatutos e os observarão.
25 Habitarão na terra que dei a meu servo Jacó, na qual vossos pais habitaram; habitarão nela, eles e seus filhos e os filhos de seus filhos, para sempre; e Davi, meu servo, será seu príncipe eternamente.
26 Farei com eles aliança de paz; será aliança perpétua. Estabelecê-los-ei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles, para sempre.
27 O meu tabernáculo estará com eles; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.
Todas essas três alianças antigas combinam-se em uma única ordenança divina. Pela nova aliança, todas as promessas de Deus se consumam. A nova aliança não aprece na promessas do VT como alguma novidade previamente desconhecida ao povo de Deus. Ao contrário, a nova aliança representa a fusão de todas as velhas promessas da aliança em termos de uma futura expectação. E até onde concerne à história do povo de Deus do VT, as estipulações e expectações da nova aliança nunca acham realização.
Não foi antes das glórias da era do novo testamento que a nova aliança recebeu esclarecimento formal. Pelo ministério do Filho de Deus , a nova aliança finalmente trouxe à fruição as promessas das alianças abraâmica, mosaica e davídica. Jesus indica o momento de estabelecimento formal da nova aliança por ocasião da instituição da refeição da aliança da Ceia do Senhor (Lc 22:20).
20 Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramada em favor de vós
20 touto to pothrion h kainh diaqhkh en tw aimati mou to uper umwn ekcunnomenon
O Cristão celebra a realidade deste novo relacionamento de aliança cada vez que participa da Ceia do Senhor (I Co 11:25). E o escritor de Hebreu reconhece o cumprimento destas novas promessas de aliança para a era presente citando a profecia de Jeremias em dois momentos (Hb 8:6-13; Hb 10:15-18). Assim, pode-se concluir que as alianças abraâmica, mosaica e davídica cumprem-se na realidade da nova aliança do dia presente. As alianças de Deus através das era são uma. Esta singularidade encontra esplêndido testemunho no caráter consumado da nova aliança.
Tendo visto, então, a unidade entre as alianças abraâmica, mosaica, davídica e a nova aliança, uma pergunta fica para ser respondida: Como se relacionam as ministrações de aliança antes de Abraão com estas alianças posteriores? A unidade da aliança de Deis inclui essas ministrações mais antigas? Respondendo à pergunta, respondemos concisamente:
A aliança com Noé provê a estrutura preservativa pela qual o propósito de Deus de redimir um povo para si deve ser realizado (Gn 8:22).
De maneira semelhante, a maldição proferida logo depois da queda do homem foi ao mesmo tempo um compromisso pelo Todo-poderoso no sentido de redimir um povo para si mesmo [a semente da mulher]. O apóstolo Paulo, de forma dramática em sua carta aos Romanos, alude ao compromisso de aliança de Deus para garantir o triunfo da semente dos redimidos sobre Satanás (Rm 16:20 // Gn 3:15). As palavras de compromisso de Deus, ditas primeiro à serpente, têm permanente significação para hoje.
3.2 Unidade Temática da Alianças
Esta unidade de tema é o coração da aliança na medida em que relaciona Deus com o seu povo. Através do registro bíblico uma frase única se repete como sumário da relação de aliança: “eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo”. A constante repetição desta frase ou sua equivalente indica a unidade da aliança de Deus( Abraão: Gn 17:7; Moisés: Ex 6:6,7; Davi: II Re 11:17; nova aliança: Ez 34:24; Zc 2:11; Hb 8:10; II Co 6:16).
Este tema unificador é desenvolvido em associação com a real habitação de Deus no meio do seu povo. A realidade de Deus morar com o seu povo revela significação sempre crescente através da Escritura. Move-se da imagem do tabernáculo (Ex 25:8) à do templo (I Re 9:3) à da cidade de Deus (Sl 87:1-3) à encarnação de Cristo (Jo 1:14) e à nova Jerusalém (Ap 21:3) . Por morar no meio deles, deus sela a realidade do fato de que Ele é, na verdade, o seu Deus e eles são, na verdade o seu povo.
Finalmente, o tema “eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” alcança seu clímax através da sua incorporação em uma única pessoa. Não no tabernáculo, mas em Cristo, é que o tema encontra cumprimento consumado. Assim, a essência do conceito da aliança se une com as expectações messiânicas de Israel. A antecipação futura é focalizada sobre um único indivíduo que incorpora em si mesmo a essência da aliança, enquanto funciona ao mesmo tempo como cabeça messiânica. Esse indivíduo cumpre seu papel como personificação da aliança através de sofrimento em lugar de outros. É o servo do Senhor, real em seu caráter, mas destinado a sofrer (Is 42:6; Is 49:8; Is 55:3,4).
Porque os vários filamentos de esperança de redenção convergem nesta pessoa única, ela se torna foco unificador de toda a Escritura. Tanto o “reino” como a “aliança” se unem sob o “Emanuel”. Não é sangue da aliança que Ele ministra como fizera Moisés (Ex 24:8). Pelo contrário, Ele solenemente declara: “isto é o meu sangue, sangue da nova aliança” (Mt 26:28; Lc 22:20). Como mediador real da aliança, Ele não ministra meramente as leis do reino. Ministra-se a si mesmo ao povo.
As alianças de Deus são uma. Na pessoa de Cristo as alianças de Deus encontram unidade encarnada. Porque Jesus, o Filho de Deus e mediador da aliança, não pode ser dividido, também as alianças não podem ser divididas. Ele mesmo garante a unidade das alianças porque e, Ele mesmo, o coração de cada uma das várias ministrações da aliança.

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